Oi, meu nome é Howard. É, não é um nome muito legal... Tenho 26 anos, e trabalho numa loja de LP's, com cheiro de poeira, algo que na verdade eu adoro. Não sou lá muito bonito, e costumo não fazer muito sucesso com as mulheres. Sempre fui uma pessoa bem fechada, não costumo compartilhar segredos. Talvez seja porque eu carrego um bem... intrigante. Esse ano resolvi comprar esse diário, mesmo achando uma idéia gay, e escrever o que eu quiser. Pelo menos agora posso compartilhar o que penso com alguém (na verdade com algo né). Bem, deixa eu tentar começar direito... sabe... Nós somos como faróis de um carro. Ou melhor, como a fotografia dos faróis de um carro em alta velocidade. É, parece loucura mas é verdade. Eles deixam raios de luz para trás, como marcando a trajetória tomada. Somos exatamente assim. Ninguém sabe, mas nós deixamos rastros, como raios de luz, marcando o caminho pelo qual passamos, as escolhas que tomamos e as quais poderíamos ter tomado. Cada vez que escolhemos virar a esquerda e não a direita, que olhamos, falamos, agimos de uma forma, tudo isso deixa um rastro. Na verdade, dois: o que fizemos de fato e o que não foi feito - nesse caso, podendo surgir várias ramificações de caminhos alternativos não tomados, cada qual com suas conseqüências e efeitos para a vida da pessoa -. Essas alternativas não realizadas são como raios mais finos de luz do que aquele que reflete o rumo escolhido, é assim que consigo diferenciar os dois. Até os rastros mais antigos permanecem visíveis, mesmo que de maneira fraca e frágil. Cada rastro é único, já que ninguém é igual. Se me concentrar, consigo ver o que poderia ter acontecido se a pessoa tivesse mudado algo, e também o que vai acontecer em um futuro próximo. Por favor, não me entenda mal, eu não posso ver o futuro de forma ampla. Apenas posso ver o que vai acontecer pelo percurso tomada por alguém, mas não posso ver como será o resto da vida dela. Se me concentrar mais ainda, consigo ver a teia sem fim formada por todos os raios de luz ao redor do mundo. Acho que existem mais deles do que estrelas no céu. Porque isso acontece? Não sei. Do que isso é feito? Não sei. Só sei que costuma ser hipnotizante - de fato, tenho que me concentrar deveras para ignorar tanta luz ao meu redor, apesar de não ser muito forte individualmente -. Porque só eu consigo ver isso? Não sei menos ainda. Até que é uma habilidade legal, mas não costumo me importar muito. Mesmo que eu consiga ver se alguém vai passar vergonha na frente das pessoas, fazer alguma merda, sofrer um acidente, ou morrer, eu não faço nada. Acredito que não cabe a mim alterar a vida de um ser humano, cada qual toma suas decisões e deve arcar com o que quer que venha a acontecer. Se eu começar a salvar pessoas, vão me chamar de herói, e virão donzelas em perigo, publicidade, fotos, mais luzes... É, você pode até dizer "Então porque não se mantém no anonimato, como o Homem-Aranha? Não precisa assumir sua identidade." É, eu sei. Mas o Homem-Aranha não tinha o poder de ver o que cada ação pode levar, e todas as quase infinitas possibilidades que todos tem ao longo de sua vida. Não, o trabalho dele é fácil. Eu não conseguiria aguentar um fardo tão pesado, mudar o rumo de uma vida, e guia-la para outro. Que direito eu tenho? Nenhum. E se algo ruim acontecesse? E se eu errasse? Prefiro nem pensar... Não quero nada disso pra mim. Estou muito bem assim, na minha, vivendo minha vida no meu próprio ritmo. A única coisa que me irrita... é que eu não consigo ver os meus próprios rastros. Deus é bem sacana.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Muito legal a idéia do de explorar esse tema através de uma pessoa com a habilidade de ver as escolhas que as pessoas tomam, e como elas influenciam ate msm indiretamente na vida de terceiros, mostrando o peso de nossas ações.
ResponderExcluir