segunda-feira, 29 de março de 2010

Apenas Pedro.

Pedrinho morava em uma vizinhança calma e tranqüila, com várias casas simples alinhadas ao longo da rua, com portões baixos de ferro, jardins a frente e atrás das casas, pessoas sorridentes com vidas sem muitas preocupações. Pedrinho sempre dizia que a sua casa era a mais bonita da rua, mesmo que todas fossem quase iguais. Haviam canteiros de rosas de várias cores a frente da casa, e nos fundos havia um belo jardim com azaléias, as flores preferidas de sua mãe. Seu melhor amigo e vizinho vivia pulando o muro da casa dele para irem brincar de faz-de-conta, soltar pipa na rua, catar minhocas nos canteiros, jogar bola e soltar peão. Mas o que ele com certeza mais gostava era de sua mãe. Ele morava apenas com ela, já que seu pai havia falecido anos atrás. Sua mãe era muito carinhosa, atenciosa, uma ótima cozinheira, com certeza a mais bela de todas. Sempre que ele se sentisse mal, ela prepararia um mingau de maizena para ele, com canela em cima. Sempre o botava na cama, o cobria, e contava diferentes histórias, sempre fantásticas, lendas de antigos heróis corajosos, amores que se realizam e finais felizes. Pedrinho dormia com um sorriso nos lábios, imaginando como seria o próximo dia, que travessuras iria aprontar.

Um dia, sua mãe resolveu preparar sanduíches para o lanche da tarde, mas o pão havia acabado. Então pediu para Pedrinho ir buscar, o qual prontamente disse que sim, e saiu caminhando lentamente pela rua. Viu o céu, tão azul quanto nunca vira antes, sem nuvens, puro anil. Pensou que se estendesse as suas mãos poderia tirar um pouco da tinta que Deus usou para pinta-lo, mas não deu certo. Talvez ele conseguisse quando crescesse. Quase chegando a padaria, notou as flores de uma quitanda próxima dali. Haviam azaléias e rosas, e outras flores. Notou as pequeninas gotas d'água, escorrendo pelas pétalas, e se imaginou saltando entre uma e outra, como se fosse do mesmo tamanho. Que beleza estranha as flores tinham. Algo que encanta a tantos, deveria ser eterno. Porém, as flores sempre murchavam, e sua beleza permanecia apenas na lembrança. Esse pensamento entristeceu Pedrinho, fazendo-o sacudir a cabeça para espantar a tristeza.

Então, Pedrinho chegou a padaria. O padeiro riu e brincou alguns minutos com ele, lhe deu seus pães, e viu o menino rumando para sua casa. No caminho, notou algo impressionante. A rua na qual os poucos carros passavam era escura como a noite, e nela haviam muitos pontos brilhantes. Como estrelas. Que incrível! Existem estrelas no chão e ninguém vê! Ficou tão empolgado com esse pensamento que saiu correndo para contar a sua mãe, enquanto ainda admirava o chão. Ao adentrar sua casa, e olhar para a cozinha, se assustou. Sua mãe jazia imóvel no chão. Deixou a sacola de pães no chão, aproximou-se, e foi chama-la.

"Mamãe... mamãe.... você está bem? Mamãe!"

Sua mãe abriu os olhos lentamente, e o encarou. O olhou bem fundo, como se quisesse viver nos olhos do filho, e disse:

"Seja um bom menino, Pedro. Agora eu tenho que ir dormir, mas sentirei muito a sua falta. Eu te amo, meu filho."

"Dormir por quanto tempo mamãe? Quando você acorda? E o nosso lanche? Eu trouxe os pães que a senhora pediu..."

Ela sorriu, e fechou as pálpebras lentamente, sussurrando:

"Boa noite, Pedro."

Fez-se silêncio. Pedrinho não sentia mais o coração de sua mãe, nem o balanço calmo de suas respirações. O que estava acontecendo? Foi correndo para a casa de seu amigo, e chamou os pais dele. Todos ficaram pasmos. Como aquilo havia acontecido? Qual foi a causa? Toda a vizinhança escureceu. Se ouviam choros baixinhos vindo das casas, pessoas cabisbaixas andavam pela rua, olhando com ternura e saudade para a casa de Pedrinho. Pedrinho ficou só. Ficou sem saber o porque de sua mamãe ter ido dormir e não voltar mais, ficou sem saber o que fazer com os pães que havia comprado. Através da janela, dava para ver o céu acinzentado, com ar de solidão.

Pedrinho se mudou. A casa com o tempo foi se enchendo de teias de aranha, as flores murchas espalhadas pela grama morta. A felicidade que se via e os risos que outrora foram ouvidos eram meros resquícios do passado. Ecos que reverberam naqueles que não esquecem, que revivem o que se foi. Pedrinho esqueceu da tinta anil do céu, esqueceu das aventuras nas pétalas, esqueceu das estrelas do chão. Parou de sonhar, parou de sorrir, desistiu do amor. Se acostumou a dias acinzentados, a pessoas egoístas, mulheres vazias, amigos que odiava, ao trabalho detestável, a mediocridade diária. Pedrinho diminuiu, e se tornou um homem.

domingo, 21 de março de 2010

Três anos

Venho da distância
Saindo da névoa
Em direção ao tempo
Então os vejo, lá, sorrindo
Tento me aproximar
Porém algo nos separa
Uma parede de vidro
Vidro maciço, tão frio
Ela me envolve, não consigo me mexer
Tento sair, quebra-la, grito, choro
Não consigo
Estou presa
Me prendi, me perdi
Dentro do vidro.