domingo, 17 de outubro de 2010

Três meses depois....

É... quem diria que eu acabaria abandonando meu blog por tanto tempo =/ Hoje começou o horário de verão, são 5:25 da manhã, e estou realmente cansada, mas me bateu uma saudade daqui... Estou dando explicações pra ninguém, mas tenho passado por momentos... difíceis, e minha criatividade meio que se perdeu. Eu meio que me perdi. Mas vou voltar a escrever com certeza, ainda tem muito a ser posto nesse blog :) Tenho fé.

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quinta-feira, 15 de julho de 2010

Rosa Meditativa.

Rosa Meditativa,
Tal leveza espanta, desce do teu encanto
E se revele para mim
A chuva cai e desliza aveludada
Fria e calma pela tua pele
Vermelha de amor, me trai os sentidos
Por qual razão te afastaste?
Só há solidão em teu céu azul
Há aqui o sentimento inominável
Da vida
Ou será que fora apenas um sonho?
Admira-me tua beleza, tua forma
Tua fragilidade etérea
Eternizada em meus olhos
Olhos de vidro, secos, inumanos
Salgados de dor, miram apenas ti
Doce rosa, o mundo se esvai em pequenez
Em atos brutos, vazios de sentido
Teu isolamento só lhe faz bem
Leve-me contigo
Sinta minha batida ritmada da vida
O que pulsa em mim é o amor maior
Em mim há a vontade de lhe tocar
Deslizar meus dedos por ti
Lhe abraçar com devoção e me unir em teu luto
Nossa tristeza em comunhão
Negação da terra, a base que te nutriu
Aceitação do azul anil, que nos resguarda
Do mergulho no silêncio
Sem fim
Sumamos desse mundo
Ingrato
Sem deixar vestígios, sem dizer
Adeus.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

AAAAAHHHHHHH!

Quero escrever, mas tenho que estudar .____.

Merda D:

Se der, depois que fizer o trabalho sobre a amiga Bee-wulf amanhã, faço a continuação do Howard *finalmente!*


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domingo, 16 de maio de 2010

Estupor.

A boate é um ambiente estranho.

Uma multidão de olhares, famintos por retorno imediato. Bater de saltos no chão, maquiagens brilhantes, risadas altas, conversas fúteis. Tudo uma grande celebração carnavalesca do exterior que construímos cuidadosamente. Nossos rostos, transparecem o que se é esperado. Nossas mãos, tocam e acariciam de forma tática, sedutoramente vazia. Existe ambiente mais controverso do que uma pista de dança? Um local fechado, escuro, com múltiplas luzes coloridas se misturando no ar, onde as pessoas adentram para dançar. Ato tão comum, expressão corporal da sintonia entre música e coração, deve ser exposto em pequenos locais criados para isso. Sendo algo normal, tão benéfico, deveria ser expressado em qualquer lugar, onde a vontade surgisse. Porém, não. O ato de dançar é vedado, cercado por timidez e julgamento. Deve-se então recorrer a pista, onde todos, de forma quase poética, entram em sintonia com as músicas. Os corpos se mexem de forma às vezes planejada, com intuito de atrair olhares. Outros se movem aleatoriamente, seguindo um estranho desejo de se deixar soltar. A escuridão é propícia, já que assim ninguém se vê ao certo, mal é possível ouvir uma palavra. Tudo que se vê de fato são os movimentos corporais, sem qualquer tipo de amarras impostas quando se está na claridade. Entretanto, todos, sem dúvidas, se reúnem nesse local com o mesmo objetivo: esquecer quem são. Dançam com alegria alcoolizada, cantam, riem, se beijam. Ao sair, o coração lentamente retorna ao normal, a realidade batendo de frente. A maquiagem toda saiu, já não há mais pique para manter o sorriso, para caçar uma carícia. Saímos de lá e nos vemos no espelho. Queria dançar para sempre. Queria viver no esquecimento, onde todos querem o mesmo que eu. A pista de dança não é uma diversão. É um refúgio.

Talvez a boate não seja estranha, mas sim extremamente conveniente. Conveniente porque nos dá o que precisamos. Frente a uma juventude que cada vez mais se esquece da importância do que não se pode ver, se perde tantas vezes até encontrar um caminho próprio, sente a pressão diária do que é viver em sociedade pesar em seus ombros, a necessidade de se ter lugares como esse se viu urgente. Mergulhamos em um estupor viciante, e conseguimos ainda sair incólumes de nossa empreitada noturna.

Com o céu clareando, somos obrigados a partir, lentamente recordando quem somos, e para onde devemos ir. Mais um dia normal se inicia, e a ansiedade e a saudade da liberdade que foi proporcionada nos persegue, durante as horas vagarosas, até retornarmos a cadência unida da dança.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Clara manhã.

Esbarrei em mim mesma segunda a noite. Foi horrível. Tudo ficou subitamente escuro, deserto. Mais parecia que eu havia sido sugada para outro local, distante, meu quarto já não se via. A encarei com temor, senti calafrios por todo o corpo. Via a tristeza, a dúvida, o medo do fracasso. O medo de desviar do rumo traçado pelos seus sonhos, tão intensos, tão densos. Seus olhos estavam foscos, perdidos em algum lugar, mas ainda assim eles viam tudo em mim. Percebi um estranho vazio, uma forma que faltava, como se ela fosse apenas o contorno de algo que não se encontrava mais ali.
Isso me assustou. Comecei a dar alguns passos para trás, com a intenção de fugir.
Porém, ao me virar, lá estava ela. O que ela quer de mim? Respostas? Eu não as tenho. Nunca as tive. Me senti só. Desesperei-me. Minha mente se tornou mórbida, idéias com odor de podridão passaram por mim, mas permaneci sem reação. Comecei a fazer parte de seu vazio, compreendi suas dúvidas, seus receios. Não soube o que fazer.
Sentei-me, e ela fez o mesmo. Ficamos nos olhando, cada qual encarando um abismo profundo no olhar da outra. Então, notei algo estranho em seu pulso. E, enfim, juntei a coragem de produzir minhas primeiras palavras a ela: 'O que é isso em seu pulso?'. Ela me respondeu: 'É o infinito.'
Silêncio.
Pude então ver tudo. O infinito que subia por seu braço, se espalhava por seu corpo, a fez inteira. A completava. A forma perdida esteve sempre lá, mas ela não notou. Vi as milhares de possibilidades, tão reais quanto ela e eu, vi tudo o que pode ser feito. Tudo isso dentro dela. Dentro de mim.
Seus olhos refletiam nos meus a verdade que não se vê quando se está só: Permita-se sonhar. A partir daí, tudo é possível.


Acordei no dia seguinte em meu quarto ainda triste, mas o céu estava azul. Que bom, ela havia ido embora. Espero não vê-la nunca mais. Porém, sei que ela aguarda, quieta, paciente, em algum canto de mim, para esbarrar em meu ombro novamente.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Wish you were here.

'How I wish, how I wish you were here
We're just two lost souls
Swimming in a fish bowl,
Year after year,
Running over the same old ground.
What have we found?
The same old fears
Wish you were here.'


Senti a melodia me tocar e sorri. Então... não fui esquecida. Como fui tola. Sinto uma leve vontade de chorar, só de pensar que o tempo passou, nossos dias juntos ficaram para trás... porém, o amor continua o mesmo.

Nunca te esqueço.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Vinte anos e nenhum problema.

Resolvido, sequer colocado.



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Parafraseando Drummond, do poema "A flor e a náusea".


Estou com vontade de escrever, as idéias fazem ciranda na minha cabeça, mas não sei como pô-las no papel. As palavras me escapam no momento, mas vou conseguir.

Porém, fica uma pergunta: Porque continuar sonhando um sonho mesmo sabendo que as chances de realizá-lo são mínimas, quem sabe até inexistentes?

Pensar nisso me entristece.

sábado, 10 de abril de 2010

Anjoplastia.

Meu vô costumava me colocar no colo dele para me contar histórias.
Mamãe e papai nunca estavam em casa, então vovô cuidava de mim.
"Tempos atrás, seu pai foi do mesmo tamanho que você..." dizia ele "...e aprontava cada uma..."
Fazia-me rir com histórias de sua vida, histórias com cheiro de algo guardado por anos, cheias de carinho, risos, e às vezes com um certo requinte de fantasia, só para dar um gostinho a mais.
Então, um dia, ouvi papai dizer que ele faria uma anjoplastia. Logo imaginei "Vão colocar um anjinho dentro do vovô, para ele sempre estar protegido!"
Fiquei extasiada! Andava pela casa feliz, saltitante, pensando no sorriso que veria no rosto do vovô por poder sentir um anjinho dentro de si.
Apenas achei estranho ver tamanha apreensão no rosto de papai. Mas rapidamente esqueci desse detalhe, e me coloquei a imaginar vovô voando por aí com as asas do anjinho.
No dia seguinte, vovô não voltou. Nunca mais o vi.
Hoje sei, que ele está por aí, voando com suas asas de anjo.




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Obs: Pequena história puramente ficcional, okay? Eu não cheguei a conhecer meus vôs =/

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Oi [2]

Novo endereço :] Nova cara :] Hurray! Espero que gostem :D

É, eu AINDA não fiz a continuação pra história do Howard... Eu sou foda -.- Quanto mais eu demoro, mais fica difícil fazer a continuação, porque a idéia original era uma coisa, e com o tempo vai mudando... às vezes dá até um completo shutdown na minha cabeça, e não consigo fazer nada lol Mas prometo que um dia sai.

Beijos a todos ;***

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Dia de chuva.

Escuto a chuva caindo, batendo no vidro
Escuto o vento trazendo lembranças de longe
Rostos que a muito não via, vozes que a muito não ouvia

Consigo sentir a chuva deslizar por minha pele
O vento sussurrando o ontem
Frio, sincero, me abraça
Trazendo a tona imagens tão vívidas
Quase esquecidas, meramente guardadas sem notar

Lembro do sol no recreio, os dias de riso
Quando achávamos que o agora era para sempre
Mas o amanhã já vinha com pressa, querendo raiar
Para levar o que eu tinha
Tão seguro, tão passageiro

Relembro com carinho meu tempo de juventude
Que envelhece,
E envelhece,
Envelhece...

segunda-feira, 29 de março de 2010

Apenas Pedro.

Pedrinho morava em uma vizinhança calma e tranqüila, com várias casas simples alinhadas ao longo da rua, com portões baixos de ferro, jardins a frente e atrás das casas, pessoas sorridentes com vidas sem muitas preocupações. Pedrinho sempre dizia que a sua casa era a mais bonita da rua, mesmo que todas fossem quase iguais. Haviam canteiros de rosas de várias cores a frente da casa, e nos fundos havia um belo jardim com azaléias, as flores preferidas de sua mãe. Seu melhor amigo e vizinho vivia pulando o muro da casa dele para irem brincar de faz-de-conta, soltar pipa na rua, catar minhocas nos canteiros, jogar bola e soltar peão. Mas o que ele com certeza mais gostava era de sua mãe. Ele morava apenas com ela, já que seu pai havia falecido anos atrás. Sua mãe era muito carinhosa, atenciosa, uma ótima cozinheira, com certeza a mais bela de todas. Sempre que ele se sentisse mal, ela prepararia um mingau de maizena para ele, com canela em cima. Sempre o botava na cama, o cobria, e contava diferentes histórias, sempre fantásticas, lendas de antigos heróis corajosos, amores que se realizam e finais felizes. Pedrinho dormia com um sorriso nos lábios, imaginando como seria o próximo dia, que travessuras iria aprontar.

Um dia, sua mãe resolveu preparar sanduíches para o lanche da tarde, mas o pão havia acabado. Então pediu para Pedrinho ir buscar, o qual prontamente disse que sim, e saiu caminhando lentamente pela rua. Viu o céu, tão azul quanto nunca vira antes, sem nuvens, puro anil. Pensou que se estendesse as suas mãos poderia tirar um pouco da tinta que Deus usou para pinta-lo, mas não deu certo. Talvez ele conseguisse quando crescesse. Quase chegando a padaria, notou as flores de uma quitanda próxima dali. Haviam azaléias e rosas, e outras flores. Notou as pequeninas gotas d'água, escorrendo pelas pétalas, e se imaginou saltando entre uma e outra, como se fosse do mesmo tamanho. Que beleza estranha as flores tinham. Algo que encanta a tantos, deveria ser eterno. Porém, as flores sempre murchavam, e sua beleza permanecia apenas na lembrança. Esse pensamento entristeceu Pedrinho, fazendo-o sacudir a cabeça para espantar a tristeza.

Então, Pedrinho chegou a padaria. O padeiro riu e brincou alguns minutos com ele, lhe deu seus pães, e viu o menino rumando para sua casa. No caminho, notou algo impressionante. A rua na qual os poucos carros passavam era escura como a noite, e nela haviam muitos pontos brilhantes. Como estrelas. Que incrível! Existem estrelas no chão e ninguém vê! Ficou tão empolgado com esse pensamento que saiu correndo para contar a sua mãe, enquanto ainda admirava o chão. Ao adentrar sua casa, e olhar para a cozinha, se assustou. Sua mãe jazia imóvel no chão. Deixou a sacola de pães no chão, aproximou-se, e foi chama-la.

"Mamãe... mamãe.... você está bem? Mamãe!"

Sua mãe abriu os olhos lentamente, e o encarou. O olhou bem fundo, como se quisesse viver nos olhos do filho, e disse:

"Seja um bom menino, Pedro. Agora eu tenho que ir dormir, mas sentirei muito a sua falta. Eu te amo, meu filho."

"Dormir por quanto tempo mamãe? Quando você acorda? E o nosso lanche? Eu trouxe os pães que a senhora pediu..."

Ela sorriu, e fechou as pálpebras lentamente, sussurrando:

"Boa noite, Pedro."

Fez-se silêncio. Pedrinho não sentia mais o coração de sua mãe, nem o balanço calmo de suas respirações. O que estava acontecendo? Foi correndo para a casa de seu amigo, e chamou os pais dele. Todos ficaram pasmos. Como aquilo havia acontecido? Qual foi a causa? Toda a vizinhança escureceu. Se ouviam choros baixinhos vindo das casas, pessoas cabisbaixas andavam pela rua, olhando com ternura e saudade para a casa de Pedrinho. Pedrinho ficou só. Ficou sem saber o porque de sua mamãe ter ido dormir e não voltar mais, ficou sem saber o que fazer com os pães que havia comprado. Através da janela, dava para ver o céu acinzentado, com ar de solidão.

Pedrinho se mudou. A casa com o tempo foi se enchendo de teias de aranha, as flores murchas espalhadas pela grama morta. A felicidade que se via e os risos que outrora foram ouvidos eram meros resquícios do passado. Ecos que reverberam naqueles que não esquecem, que revivem o que se foi. Pedrinho esqueceu da tinta anil do céu, esqueceu das aventuras nas pétalas, esqueceu das estrelas do chão. Parou de sonhar, parou de sorrir, desistiu do amor. Se acostumou a dias acinzentados, a pessoas egoístas, mulheres vazias, amigos que odiava, ao trabalho detestável, a mediocridade diária. Pedrinho diminuiu, e se tornou um homem.

domingo, 21 de março de 2010

Três anos

Venho da distância
Saindo da névoa
Em direção ao tempo
Então os vejo, lá, sorrindo
Tento me aproximar
Porém algo nos separa
Uma parede de vidro
Vidro maciço, tão frio
Ela me envolve, não consigo me mexer
Tento sair, quebra-la, grito, choro
Não consigo
Estou presa
Me prendi, me perdi
Dentro do vidro.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O Mouro que amou.

Quando acordou, pensou que tudo tivesse sido um sonho. Ficou ansioso, e virou rapidamente para trás, mas ela não se encontrava mais lá. Era sua amiga que estava dormindo, tranquilamente, sem saber de sua inquietação. Não conseguia entender o que havia acontecido. Estava certamente feliz, sua felicidade não se continha dentro de si. Parecia que ia explodir em vários pedaços que não voltariam ao lugar. Pedaços que ficariam por aí, levados pelo vento frio do inverno, sem ter quem os recolhe-se. Sua alegria passou a tristeza. Profunda e agonizante. Ela foi embora pra sempre. E todo aquele tempo que passou tentando se acostumar com sua ausência parece ter sido em vão. Levantou-se, saiu da pequena casa velha e começou a caminhar. Depois correr. Muito rápido. Mas para onde? Sua pernas não respondiam, apenas se mexeram de maneira mais veloz. Parou no milharal. Sentou-se, e sem notar começou a chorar. Suas lágrimas vieram em abundância. Lavaram seu nome, seu rosto, seu corpo. Lavaram tudo em volta, deixaram apenas o interior. Lá haviam a saudade, o amor, a raiva, a solidão. Não sabia o que fazer. Como conseguiria viver a cada dia sabendo que nunca mais veria aquele sorriso, aquele olhar. Subitamente sentiu um suspiro vindo de dentro de si. Uma calmaria sem igual. Uma sensação de paz, que lhe fez esquecer tudo. Veio tão rápido quanto se foi. Então percebeu que ela tinha partido.

Você era linda Susie Salmon.





(Obs: Isso só fará sentido para quem viu o filme "Um olhar do Paraíso". Recomendo esse filme a todos.)


(Obs 2: Eu sei que prometi a segunda parte da história do Howard, mas logo logo ela sai. Preciso de inspiração e concentração.)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Boa Noite.

Estava se arrumando como se fosse ao seu último baile. Vestido vinho longo, jóias, e seu perfume preferido. Iria sair daquela cidade, já estava cheia dela e de seus moradores patéticos e mesquinhos. Iria embora, mas não sem antes ir a um último espetáculo. Caminhou calmamente em direção ao teatro, ouvindo o silêncio ao seu redor. Não via nem ouvia a ninguém, queria apenas apreciar aquela música. Ao chegar a entrada, podia sentir os olhares. Olhares que a deixavam enojada, recheados de prepotência e medo. Adentrou o grande salão, com suas luzes fracas, arquitetura poética, antigos assentos, cheios de memórias. Sentou-se na terceira fileira, ao centro, e aguardou. Aguardou como se aguarda o momento do nascimento e da morte. Seu coração palpitava, suas mãos suavam, mas seus olhos estavam congelados em um mesmo lugar. A orquestra, enfim, parou de emitir sons desordenados e então, ele apareceu. O Maestro. Fez uma reverência ao público, seu olhar passando pela platéia, para logo depois virar e se posicionar de maneira quase soberana. Era agora. As cortinas subiram, a música começou a soar, dando início a ópera. Todos levam seu olhar para o palco, mas não ela. Ela ainda olhava para o mesmo lugar. Para ele. Seus braços começaram a se mover como ondas suaves, amorosas, para então se tornar uma tempestade revolta, impestuosa. Como ansiava ser levada por tais ondas, ser carregada para um sem-rumo sem fim. Como queria que suas mãos a tocassem, e deslizassem pela sua pele, seca de solidão. Como sonhava em sentir seus beijos, seu olhar desnudando a aparência, amando o que se é. Desejava que ele fosse só seu. Mas nunca seria. A música ressoava verdadeira e triste ao seu redor. E foi assim até o fim do espetáculo. Uma salva de palmas foi entoada pelas mãos de todos, menos pelas dela. Ela levantou-se e o olhou com seus olhos brilhantes. E por um breve instante, ele a olhou de volta. Pela primeira vez em sua vida, ele a olhou. Esse pequeno momento aparentemente insignificante, foi tudo. Tudo pra ela. A multidão começou a sair lentamente. A moça a segue, mas não sem antes lançar um último olhar, um último tolo pedido para ama-la de volta. Não há resposta. Nunca houve. Caminhou, novamente envolta pelo silêncio, para atravessar a rua. Então uma luz intensa surgiu em sua direção. Ela olhou. Um forte impacto veio em seguida. Foi lançada para longe, para tão longe, que quando tocou o chão já se encontrava fora da cidade. Finalmente poderia recomeçar sua vida. A mulher sorriu, e caminhou, ouvindo os sons da noite.


Em algum lugar da cidade, um homem acorda de seu sonho. Estava suado, assustado, e chorando. "Fique calmo, fique calmo... Foi apenas um sonho. Mas foi tão intenso... Quem era aquela mulher? Porque... Bem, não importa, eu não sou essa mulher, sou um homem. Melhor voltar a dormir..."


No dia seguinte, a mesma ópera do sonho seria apresentada. Que estranha coincidência, ele pensou. E então, lá estava ele, o maestro, pronto para dar início ao espetáculo. Olhou rapidamente para onde a mulher do sonho estava sentada, mas não era ela. A orquestra começou a tocar, mas o maestro estava distraído. Pensava nos sentimentos dela, no carinho e devoção, que por alguma estranha razão, ele compreendia. E sentia intensamente. Ao término da ópera, olhou novamente para o mesmo assento, mas ela não se encontrava lá. Sentiu uma tristeza imensa. Um vácuo dentro de si. Um abismo que o encarava. Todos se foram. Ao sair, parou em frente a entrada do teatro. Foi então que viu. Ela estava parada no meio da rua. Olhando. Sorrindo. Um sorriso que nunca imaginou ser para ele. Um sorriso que o fez chorar. Ela se virou, terminou de atravessar a rua, e caminhou em direção ao escuro da noite, até fazer parte dele. Só restou o maestro. Sozinho. Arrependido. Com saudades.


Adeus.







(Obs: Continuação para a história do Howard sairá no próximo post.)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Dia 1 de Janeiro de 2010

Oi, meu nome é Howard. É, não é um nome muito legal... Tenho 26 anos, e trabalho numa loja de LP's, com cheiro de poeira, algo que na verdade eu adoro. Não sou lá muito bonito, e costumo não fazer muito sucesso com as mulheres. Sempre fui uma pessoa bem fechada, não costumo compartilhar segredos. Talvez seja porque eu carrego um bem... intrigante. Esse ano resolvi comprar esse diário, mesmo achando uma idéia gay, e escrever o que eu quiser. Pelo menos agora posso compartilhar o que penso com alguém (na verdade com algo né). Bem, deixa eu tentar começar direito... sabe... Nós somos como faróis de um carro. Ou melhor, como a fotografia dos faróis de um carro em alta velocidade. É, parece loucura mas é verdade. Eles deixam raios de luz para trás, como marcando a trajetória tomada. Somos exatamente assim. Ninguém sabe, mas nós deixamos rastros, como raios de luz, marcando o caminho pelo qual passamos, as escolhas que tomamos e as quais poderíamos ter tomado. Cada vez que escolhemos virar a esquerda e não a direita, que olhamos, falamos, agimos de uma forma, tudo isso deixa um rastro. Na verdade, dois: o que fizemos de fato e o que não foi feito - nesse caso, podendo surgir várias ramificações de caminhos alternativos não tomados, cada qual com suas conseqüências e efeitos para a vida da pessoa -. Essas alternativas não realizadas são como raios mais finos de luz do que aquele que reflete o rumo escolhido, é assim que consigo diferenciar os dois. Até os rastros mais antigos permanecem visíveis, mesmo que de maneira fraca e frágil. Cada rastro é único, já que ninguém é igual. Se me concentrar, consigo ver o que poderia ter acontecido se a pessoa tivesse mudado algo, e também o que vai acontecer em um futuro próximo. Por favor, não me entenda mal, eu não posso ver o futuro de forma ampla. Apenas posso ver o que vai acontecer pelo percurso tomada por alguém, mas não posso ver como será o resto da vida dela. Se me concentrar mais ainda, consigo ver a teia sem fim formada por todos os raios de luz ao redor do mundo. Acho que existem mais deles do que estrelas no céu. Porque isso acontece? Não sei. Do que isso é feito? Não sei. Só sei que costuma ser hipnotizante - de fato, tenho que me concentrar deveras para ignorar tanta luz ao meu redor, apesar de não ser muito forte individualmente -. Porque só eu consigo ver isso? Não sei menos ainda. Até que é uma habilidade legal, mas não costumo me importar muito. Mesmo que eu consiga ver se alguém vai passar vergonha na frente das pessoas, fazer alguma merda, sofrer um acidente, ou morrer, eu não faço nada. Acredito que não cabe a mim alterar a vida de um ser humano, cada qual toma suas decisões e deve arcar com o que quer que venha a acontecer. Se eu começar a salvar pessoas, vão me chamar de herói, e virão donzelas em perigo, publicidade, fotos, mais luzes... É, você pode até dizer "Então porque não se mantém no anonimato, como o Homem-Aranha? Não precisa assumir sua identidade." É, eu sei. Mas o Homem-Aranha não tinha o poder de ver o que cada ação pode levar, e todas as quase infinitas possibilidades que todos tem ao longo de sua vida. Não, o trabalho dele é fácil. Eu não conseguiria aguentar um fardo tão pesado, mudar o rumo de uma vida, e guia-la para outro. Que direito eu tenho? Nenhum. E se algo ruim acontecesse? E se eu errasse? Prefiro nem pensar... Não quero nada disso pra mim. Estou muito bem assim, na minha, vivendo minha vida no meu próprio ritmo. A única coisa que me irrita... é que eu não consigo ver os meus próprios rastros. Deus é bem sacana.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Do que fica em mim.

Presenciei um momento. Estava lá, na rua, caminhando, quando vi. Um momento fugaz, que me chamou a atenção. Duas pessoas, um homem e uma mulher, que provavelmente nunca haviam se visto, caminhavam em direções opostas. Eles lançaram um olhar um para o outro de maneira única. Uma coisa não ordinária, que se vê poucas vezes. Uma folha seca começou a cair de uma árvore próxima. O tempo parou. Aquele momento congelou em minha memória, e talvez na deles. Os dois então começaram a se mover lentamente, trespassando a solidez do tempo parado. E se beijaram. Delicadamente, intimamente. No quase silêncio daquele instante, podia-se ouvir o som molhado do beijado trocado, o som de batidas rápidas de tambor, o som dos dedos apertando as roupas do outro. A folha seca subitamente volta a cair, e toca o chão. O relógio volta a caminhar, a passos rápidos. Os dois retornam a seus caminhos opostos, sem virar, sem nem pensar. Aquele momento, tão doce, nunca existiu. Não no mundo terreno, mas existiu em mim. Provavelmente nunca mais se veriam, nunca poderão experimentar o caminho que poderiam ter tomado ao mudar de direção. Mais uma realidade que não se realiza, um rumo nunca conhecido. A poesia fica dentro. Fica na vontade. No momento que não volta mais.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Ano novo.

Dia 7 de janeiro, 2010. Cinco e meia da manhã, não fui dormir até agora. Perdi o sono. Minha criatividade se esvaiu como areia em minhas mãos. Meu período de fertilidade criativa surgiu da mesma maneira que sumiu: silenciosa. O que fazer? O que é uma pessoa que se considerava um 'artista' sem sua fonte? Sem uma faísca, um início, um lugar de onde partir? Maldita criatividade, saiu de férias junto com aquela menina que um dia fui, e não voltou até agora. Deve ter se perdido em meio a esbarrões e pisadas do tempo. De qualquer maneira, vim escrever algo já que não postei nada desde novembro. Escrevi algumas coisas, mas não acho que seja necessário posta-la. Quem sabe. Enquanto escuto Placebo - Without You I'm Nothing (gosto mais ainda dessa música desde que fiquei sabendo que o David Bowie se convidou pra canta-la em um show com eles), procuro uma razão. Razão pra que? Pra estar assim. Sem vontade de criar, botar no papel, terminar coisas que antes eu tanto amava. Parece que os dias vão passando, sorrateiros, e com eles é levado, aos poucos, pedaços de nós. E nada retorna.