Estava se arrumando como se fosse ao seu último baile. Vestido vinho longo, jóias, e seu perfume preferido. Iria sair daquela cidade, já estava cheia dela e de seus moradores patéticos e mesquinhos. Iria embora, mas não sem antes ir a um último espetáculo. Caminhou calmamente em direção ao teatro, ouvindo o silêncio ao seu redor. Não via nem ouvia a ninguém, queria apenas apreciar aquela música. Ao chegar a entrada, podia sentir os olhares. Olhares que a deixavam enojada, recheados de prepotência e medo. Adentrou o grande salão, com suas luzes fracas, arquitetura poética, antigos assentos, cheios de memórias. Sentou-se na terceira fileira, ao centro, e aguardou. Aguardou como se aguarda o momento do nascimento e da morte. Seu coração palpitava, suas mãos suavam, mas seus olhos estavam congelados em um mesmo lugar. A orquestra, enfim, parou de emitir sons desordenados e então, ele apareceu. O Maestro. Fez uma reverência ao público, seu olhar passando pela platéia, para logo depois virar e se posicionar de maneira quase soberana. Era agora. As cortinas subiram, a música começou a soar, dando início a ópera. Todos levam seu olhar para o palco, mas não ela. Ela ainda olhava para o mesmo lugar. Para ele. Seus braços começaram a se mover como ondas suaves, amorosas, para então se tornar uma tempestade revolta, impestuosa. Como ansiava ser levada por tais ondas, ser carregada para um sem-rumo sem fim. Como queria que suas mãos a tocassem, e deslizassem pela sua pele, seca de solidão. Como sonhava em sentir seus beijos, seu olhar desnudando a aparência, amando o que se é. Desejava que ele fosse só seu. Mas nunca seria. A música ressoava verdadeira e triste ao seu redor. E foi assim até o fim do espetáculo. Uma salva de palmas foi entoada pelas mãos de todos, menos pelas dela. Ela levantou-se e o olhou com seus olhos brilhantes. E por um breve instante, ele a olhou de volta. Pela primeira vez em sua vida, ele a olhou. Esse pequeno momento aparentemente insignificante, foi tudo. Tudo pra ela. A multidão começou a sair lentamente. A moça a segue, mas não sem antes lançar um último olhar, um último tolo pedido para ama-la de volta. Não há resposta. Nunca houve. Caminhou, novamente envolta pelo silêncio, para atravessar a rua. Então uma luz intensa surgiu em sua direção. Ela olhou. Um forte impacto veio em seguida. Foi lançada para longe, para tão longe, que quando tocou o chão já se encontrava fora da cidade. Finalmente poderia recomeçar sua vida. A mulher sorriu, e caminhou, ouvindo os sons da noite.
Em algum lugar da cidade, um homem acorda de seu sonho. Estava suado, assustado, e chorando. "Fique calmo, fique calmo... Foi apenas um sonho. Mas foi tão intenso... Quem era aquela mulher? Porque... Bem, não importa, eu não sou essa mulher, sou um homem. Melhor voltar a dormir..."
No dia seguinte, a mesma ópera do sonho seria apresentada. Que estranha coincidência, ele pensou. E então, lá estava ele, o maestro, pronto para dar início ao espetáculo. Olhou rapidamente para onde a mulher do sonho estava sentada, mas não era ela. A orquestra começou a tocar, mas o maestro estava distraído. Pensava nos sentimentos dela, no carinho e devoção, que por alguma estranha razão, ele compreendia. E sentia intensamente. Ao término da ópera, olhou novamente para o mesmo assento, mas ela não se encontrava lá. Sentiu uma tristeza imensa. Um vácuo dentro de si. Um abismo que o encarava. Todos se foram. Ao sair, parou em frente a entrada do teatro. Foi então que viu. Ela estava parada no meio da rua. Olhando. Sorrindo. Um sorriso que nunca imaginou ser para ele. Um sorriso que o fez chorar. Ela se virou, terminou de atravessar a rua, e caminhou em direção ao escuro da noite, até fazer parte dele. Só restou o maestro. Sozinho. Arrependido. Com saudades.
Adeus.
(Obs: Continuação para a história do Howard sairá no próximo post.)