sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Boa Noite.

Estava se arrumando como se fosse ao seu último baile. Vestido vinho longo, jóias, e seu perfume preferido. Iria sair daquela cidade, já estava cheia dela e de seus moradores patéticos e mesquinhos. Iria embora, mas não sem antes ir a um último espetáculo. Caminhou calmamente em direção ao teatro, ouvindo o silêncio ao seu redor. Não via nem ouvia a ninguém, queria apenas apreciar aquela música. Ao chegar a entrada, podia sentir os olhares. Olhares que a deixavam enojada, recheados de prepotência e medo. Adentrou o grande salão, com suas luzes fracas, arquitetura poética, antigos assentos, cheios de memórias. Sentou-se na terceira fileira, ao centro, e aguardou. Aguardou como se aguarda o momento do nascimento e da morte. Seu coração palpitava, suas mãos suavam, mas seus olhos estavam congelados em um mesmo lugar. A orquestra, enfim, parou de emitir sons desordenados e então, ele apareceu. O Maestro. Fez uma reverência ao público, seu olhar passando pela platéia, para logo depois virar e se posicionar de maneira quase soberana. Era agora. As cortinas subiram, a música começou a soar, dando início a ópera. Todos levam seu olhar para o palco, mas não ela. Ela ainda olhava para o mesmo lugar. Para ele. Seus braços começaram a se mover como ondas suaves, amorosas, para então se tornar uma tempestade revolta, impestuosa. Como ansiava ser levada por tais ondas, ser carregada para um sem-rumo sem fim. Como queria que suas mãos a tocassem, e deslizassem pela sua pele, seca de solidão. Como sonhava em sentir seus beijos, seu olhar desnudando a aparência, amando o que se é. Desejava que ele fosse só seu. Mas nunca seria. A música ressoava verdadeira e triste ao seu redor. E foi assim até o fim do espetáculo. Uma salva de palmas foi entoada pelas mãos de todos, menos pelas dela. Ela levantou-se e o olhou com seus olhos brilhantes. E por um breve instante, ele a olhou de volta. Pela primeira vez em sua vida, ele a olhou. Esse pequeno momento aparentemente insignificante, foi tudo. Tudo pra ela. A multidão começou a sair lentamente. A moça a segue, mas não sem antes lançar um último olhar, um último tolo pedido para ama-la de volta. Não há resposta. Nunca houve. Caminhou, novamente envolta pelo silêncio, para atravessar a rua. Então uma luz intensa surgiu em sua direção. Ela olhou. Um forte impacto veio em seguida. Foi lançada para longe, para tão longe, que quando tocou o chão já se encontrava fora da cidade. Finalmente poderia recomeçar sua vida. A mulher sorriu, e caminhou, ouvindo os sons da noite.


Em algum lugar da cidade, um homem acorda de seu sonho. Estava suado, assustado, e chorando. "Fique calmo, fique calmo... Foi apenas um sonho. Mas foi tão intenso... Quem era aquela mulher? Porque... Bem, não importa, eu não sou essa mulher, sou um homem. Melhor voltar a dormir..."


No dia seguinte, a mesma ópera do sonho seria apresentada. Que estranha coincidência, ele pensou. E então, lá estava ele, o maestro, pronto para dar início ao espetáculo. Olhou rapidamente para onde a mulher do sonho estava sentada, mas não era ela. A orquestra começou a tocar, mas o maestro estava distraído. Pensava nos sentimentos dela, no carinho e devoção, que por alguma estranha razão, ele compreendia. E sentia intensamente. Ao término da ópera, olhou novamente para o mesmo assento, mas ela não se encontrava lá. Sentiu uma tristeza imensa. Um vácuo dentro de si. Um abismo que o encarava. Todos se foram. Ao sair, parou em frente a entrada do teatro. Foi então que viu. Ela estava parada no meio da rua. Olhando. Sorrindo. Um sorriso que nunca imaginou ser para ele. Um sorriso que o fez chorar. Ela se virou, terminou de atravessar a rua, e caminhou em direção ao escuro da noite, até fazer parte dele. Só restou o maestro. Sozinho. Arrependido. Com saudades.


Adeus.







(Obs: Continuação para a história do Howard sairá no próximo post.)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Dia 1 de Janeiro de 2010

Oi, meu nome é Howard. É, não é um nome muito legal... Tenho 26 anos, e trabalho numa loja de LP's, com cheiro de poeira, algo que na verdade eu adoro. Não sou lá muito bonito, e costumo não fazer muito sucesso com as mulheres. Sempre fui uma pessoa bem fechada, não costumo compartilhar segredos. Talvez seja porque eu carrego um bem... intrigante. Esse ano resolvi comprar esse diário, mesmo achando uma idéia gay, e escrever o que eu quiser. Pelo menos agora posso compartilhar o que penso com alguém (na verdade com algo né). Bem, deixa eu tentar começar direito... sabe... Nós somos como faróis de um carro. Ou melhor, como a fotografia dos faróis de um carro em alta velocidade. É, parece loucura mas é verdade. Eles deixam raios de luz para trás, como marcando a trajetória tomada. Somos exatamente assim. Ninguém sabe, mas nós deixamos rastros, como raios de luz, marcando o caminho pelo qual passamos, as escolhas que tomamos e as quais poderíamos ter tomado. Cada vez que escolhemos virar a esquerda e não a direita, que olhamos, falamos, agimos de uma forma, tudo isso deixa um rastro. Na verdade, dois: o que fizemos de fato e o que não foi feito - nesse caso, podendo surgir várias ramificações de caminhos alternativos não tomados, cada qual com suas conseqüências e efeitos para a vida da pessoa -. Essas alternativas não realizadas são como raios mais finos de luz do que aquele que reflete o rumo escolhido, é assim que consigo diferenciar os dois. Até os rastros mais antigos permanecem visíveis, mesmo que de maneira fraca e frágil. Cada rastro é único, já que ninguém é igual. Se me concentrar, consigo ver o que poderia ter acontecido se a pessoa tivesse mudado algo, e também o que vai acontecer em um futuro próximo. Por favor, não me entenda mal, eu não posso ver o futuro de forma ampla. Apenas posso ver o que vai acontecer pelo percurso tomada por alguém, mas não posso ver como será o resto da vida dela. Se me concentrar mais ainda, consigo ver a teia sem fim formada por todos os raios de luz ao redor do mundo. Acho que existem mais deles do que estrelas no céu. Porque isso acontece? Não sei. Do que isso é feito? Não sei. Só sei que costuma ser hipnotizante - de fato, tenho que me concentrar deveras para ignorar tanta luz ao meu redor, apesar de não ser muito forte individualmente -. Porque só eu consigo ver isso? Não sei menos ainda. Até que é uma habilidade legal, mas não costumo me importar muito. Mesmo que eu consiga ver se alguém vai passar vergonha na frente das pessoas, fazer alguma merda, sofrer um acidente, ou morrer, eu não faço nada. Acredito que não cabe a mim alterar a vida de um ser humano, cada qual toma suas decisões e deve arcar com o que quer que venha a acontecer. Se eu começar a salvar pessoas, vão me chamar de herói, e virão donzelas em perigo, publicidade, fotos, mais luzes... É, você pode até dizer "Então porque não se mantém no anonimato, como o Homem-Aranha? Não precisa assumir sua identidade." É, eu sei. Mas o Homem-Aranha não tinha o poder de ver o que cada ação pode levar, e todas as quase infinitas possibilidades que todos tem ao longo de sua vida. Não, o trabalho dele é fácil. Eu não conseguiria aguentar um fardo tão pesado, mudar o rumo de uma vida, e guia-la para outro. Que direito eu tenho? Nenhum. E se algo ruim acontecesse? E se eu errasse? Prefiro nem pensar... Não quero nada disso pra mim. Estou muito bem assim, na minha, vivendo minha vida no meu próprio ritmo. A única coisa que me irrita... é que eu não consigo ver os meus próprios rastros. Deus é bem sacana.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Do que fica em mim.

Presenciei um momento. Estava lá, na rua, caminhando, quando vi. Um momento fugaz, que me chamou a atenção. Duas pessoas, um homem e uma mulher, que provavelmente nunca haviam se visto, caminhavam em direções opostas. Eles lançaram um olhar um para o outro de maneira única. Uma coisa não ordinária, que se vê poucas vezes. Uma folha seca começou a cair de uma árvore próxima. O tempo parou. Aquele momento congelou em minha memória, e talvez na deles. Os dois então começaram a se mover lentamente, trespassando a solidez do tempo parado. E se beijaram. Delicadamente, intimamente. No quase silêncio daquele instante, podia-se ouvir o som molhado do beijado trocado, o som de batidas rápidas de tambor, o som dos dedos apertando as roupas do outro. A folha seca subitamente volta a cair, e toca o chão. O relógio volta a caminhar, a passos rápidos. Os dois retornam a seus caminhos opostos, sem virar, sem nem pensar. Aquele momento, tão doce, nunca existiu. Não no mundo terreno, mas existiu em mim. Provavelmente nunca mais se veriam, nunca poderão experimentar o caminho que poderiam ter tomado ao mudar de direção. Mais uma realidade que não se realiza, um rumo nunca conhecido. A poesia fica dentro. Fica na vontade. No momento que não volta mais.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Ano novo.

Dia 7 de janeiro, 2010. Cinco e meia da manhã, não fui dormir até agora. Perdi o sono. Minha criatividade se esvaiu como areia em minhas mãos. Meu período de fertilidade criativa surgiu da mesma maneira que sumiu: silenciosa. O que fazer? O que é uma pessoa que se considerava um 'artista' sem sua fonte? Sem uma faísca, um início, um lugar de onde partir? Maldita criatividade, saiu de férias junto com aquela menina que um dia fui, e não voltou até agora. Deve ter se perdido em meio a esbarrões e pisadas do tempo. De qualquer maneira, vim escrever algo já que não postei nada desde novembro. Escrevi algumas coisas, mas não acho que seja necessário posta-la. Quem sabe. Enquanto escuto Placebo - Without You I'm Nothing (gosto mais ainda dessa música desde que fiquei sabendo que o David Bowie se convidou pra canta-la em um show com eles), procuro uma razão. Razão pra que? Pra estar assim. Sem vontade de criar, botar no papel, terminar coisas que antes eu tanto amava. Parece que os dias vão passando, sorrateiros, e com eles é levado, aos poucos, pedaços de nós. E nada retorna.