domingo, 16 de maio de 2010

Estupor.

A boate é um ambiente estranho.

Uma multidão de olhares, famintos por retorno imediato. Bater de saltos no chão, maquiagens brilhantes, risadas altas, conversas fúteis. Tudo uma grande celebração carnavalesca do exterior que construímos cuidadosamente. Nossos rostos, transparecem o que se é esperado. Nossas mãos, tocam e acariciam de forma tática, sedutoramente vazia. Existe ambiente mais controverso do que uma pista de dança? Um local fechado, escuro, com múltiplas luzes coloridas se misturando no ar, onde as pessoas adentram para dançar. Ato tão comum, expressão corporal da sintonia entre música e coração, deve ser exposto em pequenos locais criados para isso. Sendo algo normal, tão benéfico, deveria ser expressado em qualquer lugar, onde a vontade surgisse. Porém, não. O ato de dançar é vedado, cercado por timidez e julgamento. Deve-se então recorrer a pista, onde todos, de forma quase poética, entram em sintonia com as músicas. Os corpos se mexem de forma às vezes planejada, com intuito de atrair olhares. Outros se movem aleatoriamente, seguindo um estranho desejo de se deixar soltar. A escuridão é propícia, já que assim ninguém se vê ao certo, mal é possível ouvir uma palavra. Tudo que se vê de fato são os movimentos corporais, sem qualquer tipo de amarras impostas quando se está na claridade. Entretanto, todos, sem dúvidas, se reúnem nesse local com o mesmo objetivo: esquecer quem são. Dançam com alegria alcoolizada, cantam, riem, se beijam. Ao sair, o coração lentamente retorna ao normal, a realidade batendo de frente. A maquiagem toda saiu, já não há mais pique para manter o sorriso, para caçar uma carícia. Saímos de lá e nos vemos no espelho. Queria dançar para sempre. Queria viver no esquecimento, onde todos querem o mesmo que eu. A pista de dança não é uma diversão. É um refúgio.

Talvez a boate não seja estranha, mas sim extremamente conveniente. Conveniente porque nos dá o que precisamos. Frente a uma juventude que cada vez mais se esquece da importância do que não se pode ver, se perde tantas vezes até encontrar um caminho próprio, sente a pressão diária do que é viver em sociedade pesar em seus ombros, a necessidade de se ter lugares como esse se viu urgente. Mergulhamos em um estupor viciante, e conseguimos ainda sair incólumes de nossa empreitada noturna.

Com o céu clareando, somos obrigados a partir, lentamente recordando quem somos, e para onde devemos ir. Mais um dia normal se inicia, e a ansiedade e a saudade da liberdade que foi proporcionada nos persegue, durante as horas vagarosas, até retornarmos a cadência unida da dança.

3 comentários:

  1. "Talvez a boate não seja estranha, mas sim perfeita. Perfeita porque nos dá o que precisamos." Não acho q seja perfeita, mas concordo q ela pode ser capaz de oferer o que muitos procuram, um momento de prazer, msm q fugaz.

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  2. refúgio, neverland. poderemos nunca envelhecer na pista <3

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  3. Interessante. Hoje em dia acho que nos tornamos transformadores, e tudo que deveria ser normalmente aproveitado, nós transformamos em refúgio.
    Beijos

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